Conhecer-se de verdade implica ver o que não é belo. O que é falho. O que envelhece.

Carcaça Flutuante — Ex Machina
Ex Machina · Crítica

Carcaça
Flutuante

Um monólogo em quatro câmaras — sobre plástico, Narciso, Dorian Gray, Artaud e a militância de sofá que consome enquanto protesta.

Categoria Crítica · Comportamento · Cultura
Referências Wilde · Artaud · Ovídio · Caravaggio
Publicado em Ex Machina, 2026
Câmara I

A que destila

Há uma coisa que o plástico e a memória têm em comum: nenhum dos dois afunda.

Jogamos fora o que não queremos carregar — a embalagem, o frasco, a roupa que só existiu para ser fotografada — e achamos que nos livramos. Mas o Pacífico tem cinco bolsões onde o descarte vai ensaiando eternidade. Cinco câmaras de arquivo. Cinco espelhos onde o século deposita o que não quer ver.

O plástico não desaparece. Ele aprende a ser menor. Partido em fragmentos menores que cinco milímetros, entra na corrente oceânica, entra no peixe, entra no prato, entra no sangue — e lá está: 1,6 micrograma por mililitro na corrente de setenta e sete por cento das pessoas testadas. Chegou à placenta. Chegou ao cérebro. Chegou a lugares que achávamos intocáveis porque nunca tínhamos tocado neles com atenção suficiente.

Isso é o que fazemos com o que amamos brevemente e descartamos depressa:
ele não vai. Ele só muda de endereço — e o próximo endereço é dentro de nós.

Camada de lixo flutuando entre as costas da Guatemala e de Honduras
Camada de lixo flutuando entre as costas da Guatemala e de Honduras — Foto: Cortesia de Caroline Power.
Câmara II

A que performa

Escuta. Presta atenção.

Compra o sérum. Compra o gloss. Compra a legging de poliéster que vai durar três meses e derreter em fibras microscópicas cada vez que entrar na máquina de lavar. Abre o TikTok. Clica no link da bio. Adiciona ao carrinho antes que o FOMO feche a janela do raciocínio. Quarenta e sete por cento de nós já comprou porque alguém bonito apontou para uma câmera e chamou de essencial. Quarenta e sete por cento. Isso não é fraqueza. Isso é arquitetura — uma arquitetura que nós mesmos pagamos para que nos construísse assim.

Trezentos e cinquenta e quatro bilhões de dólares por ano. O mercado de beleza. As microesferas esfoliantes que prometem pele nova vão direto para o esgoto, direto para o oceano, direto para a barriga do peixe que vai direto para o prato. O glitter da produção que virou conteúdo vai boiar na Grande Mancha do Pacífico por quatrocentos anos. O haul do domingo gera fibras que nenhum filtro de esgoto captura. E o Brasil — líder global, 238 mil perfis só em beleza — está no epicentro dessa equação que confundiu desejo com necessidade, tendência com identidade, produto com pertencimento.

Não estou de fora. Tenho o app. Já converti recomendação em compra.

A corrente giratória que mantém a ilha de lixo funcionando não está no Pacífico. Está no algoritmo. E ela passa por aqui.

*(RISOS.)*
Câmara III

A que negocia

Considera-se formalmente notificada a espécie.

Conforme documentado nos termos do acordo vigente entre a Corrente Oceânica Subtropical do Norte e a Indústria Global de Bens de Consumo Rápido, firmado ao longo das últimas sete décadas sem testemunha e sem retratação, o plástico descartado retornará ao remetente pela via longa — passando pelas rotas marítimas, pela cadeia trófica, pelas vias aéreas de partículas em suspensão, pelos filtros de placenta e barreira hematoencefálica, conforme cláusula de entrega garantida.

O calendário de devolução não contempla urgências. O polietileno de tereftalato leva quatrocentos anos. As fibras de poliéster, duzentos. O prazo é incompatível com a expectativa de vida humana, o que configura — nos termos do contrato — uma vantagem unilateral para a parte não-humana.

Registra-se que a inflamação crônica, a desregulação hormonal, o estresse oxidativo e os danos ainda em classificação nos tecidos cerebrais não constituem penalidade. Constituem taxa de serviço. O serviço prestado foi: pertencimento imediato, identidade embalada, beleza com prazo de validade de um ciclo de conteúdo.

Cláusula terminal, artigo único: A ilha não está no oceano. A ilha somos nós — acumulando, fragmentando, reduzindo ao invisível tudo o que consumimos sem escolha consciente, até que o menor fragmento de nós mesmos circule pela corrente e volte, em dose mensurável, ao sangue de alguém que nunca soube o que comprou nem o que pagou.

Câmara IV

A que aspira — Reflexo sem Fundo

Narciso, Caravaggio
Narciso, Caravaggio (c. 1597–99).

Tirésias era cego e via tudo.
Narciso tinha dois olhos perfeitos e só conseguia ver a si mesmo.

A profecia não era maldição — era diagnóstico. Ele só viverá muito se não se conhecer. E o oráculo sabia: conhecer-se de verdade implica ver o que não é belo. O que é falho. O que envelhece. O que a câmera nunca enquadra no ângulo certo.

Narciso não morreu de vaidade.
Morreu de incapacidade de suportar o que havia além do reflexo.

Dorian Gray resolveu isso de forma mais eficiente.

Terceirizou o envelhecimento para uma tela que ninguém via — guardou num quarto trancado a alma que se deteriorava enquanto o rosto permanecia intocado. É o modelo de negócio perfeito: a degradação acontece, mas fora do feed. O retrato apodrece nos bastidores. O conteúdo segue impecável.

A única diferença entre um capricho e uma paixão para toda a vida, escreveu Wilde, é que o capricho dura um pouco mais.

O produto lançado segunda-feira é o capricho de quinta.
A identidade embalada com ele dura até o próximo drop.

O influenciador faz o inverso de Artaud. Entrega a desordem já administrada. A autenticidade como produto. A vulnerabilidade como estratégia de conversão. O caos com hashtag, o choro com luz de anel, a crise existencial monetizada antes que seque.
Antonin Artaud
Antonin Artaud — Teatro da Crueldade.
Foto: The Listening Room.

Artaud queria um teatro que tocasse o sistema nervoso antes de tocar a mente — que chegasse ao corpo antes que os filtros morais pudessem interceptar. Que quebrasse a anatomia organizada e devolvesse ao humano sua desordem original, sua potência não administrada.

Artaud queria romper os filtros para chegar à vida. O algoritmo criou um filtro que chega antes da vida — e a substitui.

O que o mercado de beleza vendeu não foi produto.
Foi a promessa de que o reflexo na água seria, desta vez, correspondido.

Que desta vez Narciso não morreria à beira do lago — porque existe o filtro de pele, o gloss que hidrata, o sérum que reverte, o haul que renova. Que a imagem que olha de volta pode ser mantida. Que o retrato pode ficar bonito para sempre se você comprar os insumos certos.

Trezentos e cinquenta e quatro bilhões de dólares por ano apostando que Narciso compraria a solução se existisse mercado suficiente para vendê-la.

E existe.

Os relacionamentos entraram nessa equação de forma silenciosa

Não como conexão — como audiência. O parceiro que lambe a maquiagem é testemunha da performance, não sujeito de um encontro. A presença do outro passou a funcionar como validação externa do reflexo — alguém que confirme que a imagem na água é real, é bela, é digna de ser postada.

Quando o outro para de confirmar, é trocado.
Não há rompimento — há descontinuação do produto.

E então existe a militância de sofá. Que fala mal do capitalismo entre uma compra e outra. Que partilha threads sobre consumismo consciente com o iPhone mais recente. Que se identifica com Dorian Gray sem perceber que é o Lord Henry — o que convence o outro a vender a alma enquanto mantém as próprias mãos limpas.

A vaidade que se chama de consciência é a vaidade mais difícil de ver.
Porque tem retórica. Tem posicionamento. Tem estética de resistência.

E um retrato trancado num quarto que ninguém acessa.

Artaud disse que nenhuma revolução política ou moral é possível enquanto a ordem anatômica não for transformada — enquanto o corpo não for devolvido a si mesmo, fora dos sistemas que o organizam como produto, como audiência, como dado de conversão.

Mas o corpo já foi vendido.
Em fibras de poliéster que circulam pelo oceano.
Em microplásticos que chegaram à placenta.
Em pixels que ensinam uma criança o que é ser desejável antes que ela saiba o que é ser.

Narciso pelo menos se apaixonou por algo real — era a própria imagem, mas era uma imagem.

Hoje nos apaixonamos por uma versão editada de uma versão performada de uma aspiração que nenhum corpo real pode sustentar.

E continuamos comprando.
Porque o lago precisa estar sempre cristalino.
Porque o reflexo precisa estar sempre lá.
Porque se o reflexo sumir —

o que resta é apenas o fundo.

E o fundo está congestionado. Tanto quanto nossas veias e septo.

*(RISOS & APLAUSOS.)*
Nota da autora

Este texto começou antes de ser escrito.

Começou numa inquietação que eu não conseguia nomear ainda, mas que já sabia que tinha a ver com ornamento. Com o que se coloca por cima para que a essência não precise aparecer.

O I Ching chama isso de advertência: os ornamentos são acréscimos embelezadores que podem ocultar ou abafar a verdadeira essência. Não é condenação — é alerta. A graça genuína existe. Mas ela se endurece quando vira postura. Quando deixa de ser presença e vira performance calculada para ser lida como presença.

Foi isso que me fez escrever sobre influenciadores — não o julgamento óbvio, mas a pergunta mais incômoda: em que momento a expressão de si mesmo vira mercadoria de si mesmo? Em que momento o reflexo substitui o rosto?

A sociedade e as relações te exigem perfeição, beleza e segurança e atualizam seus sistemas de classificações nada modesto e super entediante através das conquistas materiais. Ostentar prazeres enquanto estamos sucumbindo como seres humanos é a contramão da simplicidade, caridade e amor de Cristo.

Narciso não era mau. Era incapaz de suportar o que havia além da superfície.

E nós construímos uma economia inteira para que ele nunca precisasse tentar.

Debora Ribeiro Pereira — autora
Débora Ribeiro Pereira
Ex Machina

Postagens mais visitadas