O que eu aprendi no último dia - nesse único dia - em 4 anos, fotografando torneios de tênis.

Quadra do Fundo
Crônica · Registro · Observação

A quadra
do fundo

Sobre energias que ensinam sem pedir palco, e o privilégio de não saber nada sobre ninguém.

M·DAS MACHINE Crônica 2026
Nota da autora

Este blog tem sido algo muito específico: não quero perder a humanidade dos meus registros. Então pode ser que se encontre de tudo que é relevante ao meu momento.

Quadra do clube — guarda-sóis e saibro

Estava ouvindo Say Hello 2 Heaven — Temple of the Dog.

Às vezes, no instante em que paro e observo pessoas, contextos, presenças, comportamentos… sinto que me transformo interiormente. Mas, de tudo que eu observo, o que percebo após passar por lugares e grupos é que existem energias singulares que, se bem captadas, têm o poder de alterar a famosa química no seu cérebro.

Percorrer caminhos que te façam sair dos centros familiares e observar outros grupos e seres, estabelecer-se em lugares onde você não conhece ninguém, ajuda a comprovar essa crônica reflexiva de que apenas a energia ensina.

Apenas uma energia que cruza seu caminho. Não saber "nada" sobre alguém é um privilégio que me concedo, porque eu consigo comprovar o quão impacto alguém tem no meu campo. Esse "nada" seria o tudo pelo que os seres humanos batalham, literalmente. Por status, poder ou posição. Nem as suas lutas e guerras são dignas, é tudo por mera vaidade e descontrole.

Mas, sobre o privilégio de caminhar às cegas às vezes, eu pude aprender, assistindo no cotidiano, o quão mestres alguns podem ser de si mesmos e como podemos ser de nós mesmos, e que toda doma ou poda de comportamentos excessivos é a verdadeira aliança da tua consciência. Podemos combater naturalmente, rebater com a paz, tranquilidade, serenidade, controle e domínio das emoções. Mesmo que a sua verdade, sendo contrariada, possa criar pequenas fissuras na sua energia, que não se prolonguem por muito tempo, no seu tempo.

E essa comprovação veio sobre não saber nada de alguém e ter o olhar limpo e sem julgamento. Eu amo não saber quem eles são, com o que trabalham e em quais contextos sociais vivem. Embora tanto seja exposto hoje em dia, ainda tem seres muito bons escondidos ou não vistos por aí, que te ensinam apenas vivendo a vida deles, respeitando seu círculo e naturalmente sendo respeitados. É onde vejo a diferença entre círculos e bolhas sociais. Quando crescemos em uma única bolha, fica tudo muito "manjado", as conexões vêm com muita intenção oculta, cobranças e comportamentos externos para criar qualquer contexto que não cabe a ninguém forçar.

Já encarei algumas estradas, inocentemente curiosa, quis descobrir uma forma de mudar algum contexto social coletivo — porque pra mim, é inconcebível o fato de minarmos tanto assim nossas posições e o controle de nossas vidas, que, com tanto sacrifício, vamos nos reerguendo, sendo sustentados com meras publicidades e campanhas de calendários e seus eventos sazonais motivadores de consumo, apenas ignorando o fato de que uma simples bomba ou avião-bomba caia na cabeça enquanto almoçamos.

Mesmo que tudo esteja gritando lá fora, seu silêncio é um aliado poderoso.

Podemos e devemos nos colocar em contextos que possam edificar nossas almas e corpos sem precisar que eles ditem e vendam tantos acordos, sem o mínimo do respeito com que impõem seus produtos veementemente. Escolhem o que comemos, vestimos, controlam nossas emoções com conteúdos rasos, repetitivos, que sugam o nosso tempo enquanto não saímos dessa frequência absurda e caótica.

Transitar entre as energias em silêncio me faz perceber que, ao ter passado por várias bolhas e grupos, muita coisa se repete, mas existem, sim, energias que imperam sobre todas as outras. Não digo isso minimizando ou criando uma pseudo hierarquia de almas e virtudes — apenas especificando que essa chavinha, essa química alterada que vem dessa análise sobre o que a vida te mostra e através de quem ela mostra, é apenas uma nova sinapse sobre o que fazer, como domar e controlar nossas emoções para não entrar nos excessos do coletivo.

E isso se encaixa, ao meu ver, em todos os aspectos da nossa vida, tanto espiritual, pessoal, interior, como material e financeira. Na religião, no esporte, na carreira profissional… Os caminhos, a sincronicidade, o cosmo, tudo acontece para que, na hora certa, você perceba o quanto a sua e a nossa vida importam. E um simples olhar pode te ensinar um pouquinho sobre como ser e se educar, sendo a sua pura essência sem os excessos.

* * *

E foi num jogo de tênis que tudo isso se materializou.

Eu estava lá como fotógrafa, função que me obriga a observar antes de qualquer coisa. Aprendi cedo que no tênis não adianta dominar a luz se você não entende o movimento — um lance desengonçado, fora do tempo, entrega uma imagem tecnicamente perfeita e esteticamente morta. Então eu aprendi a jogar para aprender a ver. E nesse último jogo, acho que aprendi muito mais do que enquadrar um saque.

A quadra tinha tensão. De um lado, admiração genuína. Do outro, uma energia estranha — pedidos bizarros saindo da arquibancada como se houvesse alguma obrigação tácita ali, para quem era O observado, pagar o chopp pra galera, com aquela familiaridade forçada que às vezes encobre algo que só vai ter nome depois. E no meio disso tudo, essa pessoa que eu nunca tinha visto antes — e que, como de costume, eu fiz questão de não querer saber quem era.

O que eu vi foi alguém que jogava como se o adversário fosse apenas mais uma variável do jogo, e não o centro dele. Cada ponto perdido era processado em silêncio. Cada explosão do outro lado da rede era recebida com uma serenidade que não parecia ensaiada — parecia antiga, construída, daquelas que custaram algo pra chegar ali. Eu fotografava e sentia que estava documentando uma aula que ninguém tinha anunciado.

E o que mais me desarmou não foi só a calma — foi o bom humor dentro da calma. Ele não precisava dizer nada grandioso. A gentileza voltava simples, quase automática, lembrando nas entrelinhas que aquilo era um jogo entre amigos — e talvez exatamente por isso emputecesse ainda mais o adversário. Porque não tinha onde se agarrar. Não havia rispidez para rebater, não havia ego à mostra para atacar. Só leveza. E a leveza, às vezes, desarma mais do que qualquer resposta dura.

Em dado momento fui interpelada por quem perdia, me pedindo para agir como árbitro e conferir se a bola tinha sido na linha ou não. Tentei me esquivar como manda a educação no esporte e não me envolvi verbalmente — mas admito, tinha comemorado um ponto que foi simplesmente bonito demais pra conter. O movimento era preciso, limpo, daqueles que a câmera agradece. Me empolguei. Errei o protocolo com o coração. E pelo que percebi, levei uma descompostura que os meus fones de ouvido felizmente filtraram pela metade.

Na semana seguinte, o responsável pelo torneio me procurou para saber se eu havia sido ofendida, com preocupação, me dando apoio e dizendo que se hovesse ocorrido mesmo, isso seria levado a diretoria do clube. Ele não citou nomes. Não precisava. Éramos apenas três naquela quadra do fundo — eu e os dois atletas em serviço. E só uma dessas pessoas tinha o gesto de tomar essa iniciativa.

Fui entender depois, por cima, quem era o sujeito. O nome tem peso na cidade. É o tipo de pessoa que toma decisões difíceis todos os dias, que não está frequentemente em rodinhas de clube — alguém de certa forma inacessível no cotidiano. E em quase quatro anos fotografando assiduamente aquele clube, no último torneio, foi a única vez que me senti defendida de alguma forma.

Não foi um gesto heroico. Foi simplesmente humano. Daqueles que todo mundo deveria fazer se presenciasse — e que a maioria deixa pra lá.

Algumas presenças não precisam do palco principal. Elas constroem o próprio — e às vezes nem percebem.

E o detalhe que talvez resuma tudo: aquele jogo não estava acontecendo na quadra principal. A quadra principal — com a plateia inteira de frente, o lugar que "pertencia" à atenção de todos — estava ocupada por outra partida. Os jogadores de lá disputavam o set deles no lugar certo, no palco certo. E em algum momento percebi que eles se irritaram. Não pelo barulho. Mas porque a tarde inteira, sem avisar, sem pedir, a quadra 2 havia roubado a cena.

// registro

Essa é a minha mera percepção compartilhada após alimentar a teimosia
ou necessidade de ainda proferir e expressar algo próprio.

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