A Comodidade de Odiar o Capitalismo. Um ódio que não custa nada além de incentivar e reprimir o que é puro e singelo.
O corpo que o sistema
não consegue
comprar
Mas tenta todos os dias — e o que fazemos com a vida que já existe enquanto debatemos a que ainda vai nascer.
"O corpo das mulheres é a última fronteira do capitalismo. Imagine se as mulheres entram em greve e não produzem filhos, o capitalismo para. Se não há controle sobre o corpo da mulher, não há controle da força de trabalho."
Vi o post. Vi os comentários.
Centenas deles — a maioria de pessoas que, eu apostaria, têm pelo menos um objeto de luxo financiado, um delivery chegando na porta e uma narrativa solidíssima sobre o quanto odeiam o capitalismo. O consenso ali era quase festivo: não se reproduzir é um ato de resistência. Como se a recusa fosse, finalmente, a resposta à altura do problema.
Federici acerta no diagnóstico. Ela acerta onde dói. O corpo das mulheres como fronteira, como zona de controle, como matéria-prima que o sistema precisa administrar para continuar girando — isso é real, documentado, histórico.
Mas um ato ainda mais terrível de todos os séculos é tentar converter a mulher em mera função social — como se a potência de gerar, amar, cuidar e sustentar a vida fosse só um papel negociável dentro da máquina histórica. Esse sistema revolta não apenas porque controla: ele tenta rebaixar uma singularidade ontológica à categoria de utilidade. O humano não nasce por decreto social, e o materno não é invenção administrativa. Ele participa da estrutura mesma da vida — da dependência originária, da vulnerabilidade que nos constitui, da continuidade que não pedimos mas recebemos como herança. O que fazem conosco aqui não é apenas coerção econômica, mas um esforço de deformar a relação entre ser, nascimento e futuro, reduzindo tudo a consumo, culpa e obsolescência programada. Por isso continuo trabalhando e insistindo em ofertar meu tempo a negócios com propósito, e não apenas à sobrevivência — para que minha filha herde não só tempo, mas a possibilidade de existir sem ser imediatamente capturada pela máquina. E não, isso não é só discurso de quem ama a maternidade: Luce Irigaray mostra que o feminino foi apagado da linguagem e da filosofia, enquanto Hannah Arendt recoloca a natalidade no centro da condição humana, e Adriana Cavarero insiste na singularidade encarnada do nascimento como fato irredutível da existência.
o mundo — e deu certo
Quando ligo para ela depois de um dia em que alguém decidiu usar minha existência como argumento de mesa de refeitório, ela atende — e a primeira coisa que diz é o meu nome. Não como chamado. Como reconhecimento. Como quem diz: você ainda é real, eu ainda estou aqui, o mundo ainda faz sentido.
Minha filha tem seis anos. Para mim, ainda é um bebê.
É uma criança que me orgulha — respeitosa, sensível, educada, amável, carinhosa com uma precisão que desafia qualquer cinismo que eu pudesse carregar sobre a natureza humana. Desde o segundo aniversário dela, somos nós duas contra o mundo. E essa foi uma resistência de verdade — incluindo, e talvez principalmente, contra a própria família.
Minha mãe. Minha irmã. Assim que fiquei sozinha com ela em outra cidade, o diagnóstico delas foi imediato: seria o fim. Eu não conseguiria nos manter. Eu precisaria voltar.
Não voltei.
Por seis anos: ela na escolinha em período integral, eu trabalhando dia e noite para pagar o aluguel temporário, pagar uma escola decente, correr para oferecer o melhor dentro do que era possível. E isso deu muito certo — não no sentido que o sistema mede certo, não em metros quadrados nem em sobrenome no portão. Deu certo porque a relação que construí com a minha filha nesses seis anos não teria a mesma densidade se eu tivesse cedido antes. Ela lembraria mais da comida da minha mãe do que da minha. Lembraria do colo de outra pessoa como referência primária. A memória afetiva de uma criança é cartografia — e eu precisava ser território, não passagem.
Precisei voltar agora. À beira de um burnout, escapando de um aluguel caro e uma escola com preço de faculdade. As avós às vezes são sem noção também — passam por cima sem pensar duas vezes, como se o projeto de uma mulher pudesse ser administrado por consenso familiar não solicitado. Mas voltar agora, depois de seis anos, é diferente de ter voltado antes. A diferença não está no endereço — está no que já foi construído, no que minha filha já sabe sobre mim, no que ela já reconhece como presença e não como ausência gerenciada por terceiros.
Chamo isso de resistência social. A resistência de uma mãe que quer estar com a filha e viver a maternidade em todas as suas camadas — inclusive as inconvenientes, inclusive as que não têm estética de post. A resistência de quebrar o padrão de que viver fora de casa exige um homem ali como âncora de legitimidade.
uma mesa de refeitório
Essa frase da imagem me lembrou de algo recente.
Uns três, quatro meses atrás, eu estava prestando serviço em uma agência no modelo híbrido — analista de marketing digital sênior, função que eu conheço, cargo que me animava. Viajei oito horas cruzando São Paulo até o Paraná. Cheguei com empolgação e com uma saudade de proporções geológicas da minha filha, que havia ficado com a avó para que eu pudesse fazer todo aquele percurso.
Havia perdido meu pai há poucos meses. O luto ainda pulsava.
Numa mesa de refeitório, apenas mulheres. A conversa — que aconteceu porque eu estava ali, mesmo que sem a minha participação — girava em torno de como certas pessoas usam a maternidade e a independência como personagem. De como é bom morar com os pais, chegar em casa e ter tudo feito.
E então, com aquela leveza específica de quem está sendo reativo sem que ninguém tenha perguntado nada: "se você não se dá bem com seus pais, se eles não te amam ou não te querem na casa deles, tudo bem — mas tem gente que gosta."
Fiquei em silêncio. Ouvi. Senti a direção de cada frase com a clareza de quem está de luto e ainda assim viajou oito horas para estar ali, com a filha do outro lado do estado, tentando construir algo.
Cheguei no apartamento e fiquei um bom tempo quieta antes de ligar para ela.
E o que ficou não foi mágoa — foi uma pergunta que não conseguia sair da cabeça: essas pessoas nunca vão saber o que é ser amada por uma criança. Amada genuinamente, singelamente, sem transação, sem agenda, sem o verniz de nenhuma teoria sobre o que o amor deveria ou não deveria ser. Uma criança que te reconhece como território antes de ter palavras para isso.
E decidiram isso — de maneira ativa, com argumentação, com solidariedade de grupo — enquanto lutavam sistemicamente contra uma natureza humana, feminina e abençoada, que elas mesmas transformaram em estereótipo para poder descartar.
O sistema não precisou fazer muito. Bastou tornar o cuidado invisível o suficiente para que as próprias mulheres começassem a competir em torno da sua recusa.
outra embalagem
A pessoa que declara "não me reproduzir é minha resistência" enquanto consome, enquanto acumula experiências e objetos dentro do mesmo sistema que diz combater — essa pessoa não está fora da máquina. Ela está dentro, numa ala diferente, com a vaidade do seu consumismo preservada como se fosse virtude. O capitalismo não precisa que todo mundo geste. Ele precisa que todo mundo continue consumindo. E a recusa da maternidade biológica, desacompanhada de qualquer gesto concreto em direção à vida que já existe e aguarda, não rompe nada — reorganiza a participação dentro do mesmo circuito.
Porque essas vidas já existem.
Essas crianças não são dado. São cartografias interrompidas — vidas que começaram e não encontraram território.
O instinto de cuidar.
Virginie Despentes não tem paciência para coerência de vitrine. bell hooks insistia que o feminismo que não confronta a própria classe não confronta nada. Sara Ruddick — que pensou o cuidado como prática filosófica e política — sabia que sustentar uma vida não é submissão ao sistema: é o único ato que o sistema não consegue fabricar com eficiência suficiente para prescindir do humano.
O sistema conseguiu exatamente isso: apagar em muitas mulheres não o desejo de gestar, mas o instinto de cuidar — de qualquer vida, em qualquer formato. Não porque as mulheres sejam fracas ou alienadas. Mas porque o cuidado é trabalhoso, não tem estética de consumo, não cabe em narrativa de resistência limpa. Cuidar de uma criança de doze anos com histórico de abandono não tem a legibilidade simbólica de uma greve de útero. Não gera conteúdo. Não acumula coerência ideológica facilmente exibível.
E o sistema sabe disso. Contou com isso.
Luce Irigaray mostrou que o feminino foi apagado da linguagem antes de ser apagado da história. Adriana Cavarero insiste que o nascimento é fato irredutível — que cada corpo que chega ao mundo é singular, intransferível, impossível de ser totalmente capturado por nenhum sistema. Hannah Arendt chama isso de natalidade: a possibilidade estrutural do novo, o fato de que a história não se fecha enquanto alguém começa.
Há 34 mil começos suspensos dentro de instituições nesse país.
Não digo isso para culpar quem não adota, nem para romantizar o cuidado como vocação feminina natural — essa armadilha já foi suficientemente usada contra nós. Digo porque a pergunta real, a que os comentários evitam, é esta: se o problema é o sistema que controla os corpos e administra a reprodução da força de trabalho — o que fazemos com a vida que já está aqui, já produzida, já abandonada dentro desse mesmo sistema?
A resistência que não toca essa pergunta é estética, não política.
É vaidade com outra embalagem.
E o sistema, como sempre, fecha o trimestre no azul.
"A resistência que não toca a vida que já existe é estética, não política. É vaidade com outra embalagem. Silvia Federici diagnostica a fronteira. O que faço com o território já ocupado é escolha minha — e essa escolha, diferente do diagnóstico, não tem como ser terceirizada."
Este texto começou como uma reação a um post viral. Terminou onde terminam todas as coisas que me importam de verdade: na minha filha, no que construímos juntas, e no que escolho fazer com o tempo que tenho enquanto esse sistema ainda não encontrou a forma de administrar o amor sem transformá-lo em função.
As filósofas citadas aqui — Federici, Irigaray, Arendt, Cavarero, Ruddick, bell hooks, Despentes — não são ornamento intelectual. São o vocabulário que me permite nomear o que sinto com precisão, sem sentimentalismo e sem a pressa de quem quer agradar. Nomear é o começo de qualquer coisa que mereça o nome de resistência.
Os dados sobre acolhimento e adoção no Brasil são do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA/CNJ), da Secretaria Nacional de Assistência Social (2025) e do Instituto Bem Cuidar. Estão aqui porque resistência sem número é poesia. E eu prefiro as duas coisas juntas.